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Rossellini e o vulcão como metáfora cinematográfica

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.04.10

 

Ultimamente dou comigo a ver filmes italianos e franceses actuais, europeus digamos assim. Não incluo os filmes ingleses nesta categoria de filmes europeus, pois a sua concepção lembra-me muito a construção dos argumentos americanos e actualmente, dos ingleses, prefiro as séries televisivas históricas. Agora estou mais virada para o cinema europeu do sul. Cinema italiano, francês, espanhol...

O cinema inglês foi, para mim, Powell e Pressburger, Hitchcock e David Lean. Embora um ou outro filme actual ainda mexa comigo, essa foi a minha época preferida. Depois houve um tempo em que via filmes suecos (Bergman) e nórdicos em geral... mas agora estou mais sulista talvez...

 

A Europa cultural está muito para além de lugares cinematográficos, exotismo de um passado ainda presente, turismo histórico, etc. A Europa cultural ainda existe, é preciso não deixar que o processo de erosão actual a consiga destruir. E só por isso já valia a pena ver alguns filmes actuais. Não propriamente pela linguagem específica do cinema, porque aí os especialistas são os americanos. Desconheço o cinema actual do oriente, Japão, Índia, China, Coreia, etc., mas dizem-me que há imenso a descobrir, autênticas revelações. Não duvido. Mas tenho de me concentrar nalgum ponto e nalguma motivação, e agora é a Europa que ocupa os meus neurónios e o meu coração. Perceber quem somos e para onde nos estão a querer levar, arte incluída, sendo a arte comunicação connosco próprios, com os que nos rodeiam e com o mundo.  

 

O impacto que o cinema europeu teve na minha pessoa foi gradual, insinuou-se. Na infância e pré-adolescência não fui imune à terrível poesia e romantismo da língua francesa, por exemplo. Na televisão passavam séries de cavaleiros com nomes românticos, Le Chevalier de la Tempête, não acham incrível? Sim, que adolescente ficaria imune? Aqueles cavaleiros corajosos, sempre de espada pronta para defender a sua dama, os castelos sombrios e majestosos... ainda por cima andava a ler o Alexandre Dumas... Também passaram nessa altura séries inglesas de época que acompanhei com imenso interesse: Disraeli, Anna Karenina, Eu, Claudius... O teatro inglês, e o teatro filmado em geral, era muito valorizado.

 

Mas os meus primeiros filmes foram os musicais americanos na televisão a preto e branco, as comédias, as aventuras, a capa e espada, os piratas. Só mais tarde iria aprender a valorizar os diálogos, o seu incrível ritmo, a sua ironia. O mesmo para os filmes ingleses, o lado mental dos seus filmes, sóbrio e afectado.  

Entretanto descobri o cinema italiano, na comédia inicialmente, mas depois no neo-realismo. La Strada foi o que mais me impressionou. A música ajudou a fixar essa impressão. Mas houve outro filme, o Stromboli, esse vulcão activo nessa ilha atávica, visceral.

 

É dessa ilha e desse vulcão que gostaria de falar hoje. De uma aldeia de vida dura, de gente dura. E como uma mulher que escapara a um campo de concentração se vê ali enfiada, numa nova prisão, a da natureza violenta, a da solidão e isolamento.

O filme é quase um documentário, o que o torna incrivelmente realista. Vale a pena rever aquela escalada da mulher pela montanha, a nuvem que a envolve, o seu terrível cansaço. A natureza ainda lhe ensinará o essencial de si própria, mas porque ela quer viver. Por vezes é preciso enfrentar a morte, o fim de tudo, para poder respirar e viver.

 

O vulcão é uma metáfora, a meu ver, terrivelmente intensa e sensual. Os japoneses sabem-no pois explicam quase tudo o que lhes acontece a partir da natureza. E isto é possível porque a sua linguagem é essencialmente visual.

A natureza tem tudo para nos revelar sobre a nossa própria natureza. Rossellini mostra-nos isso da forma mais realista e poética possível. Ele que foi um dos realizadores que melhor conciliou realidade e poesia. Lembram-se da Viaggio in Italia? Desse outro vulcão, o Vesúvio, e das marcas da destruição que deixara atrás de si? Do impacto que essa viagem teve nessas duas criaturas a organizar as suas vidas no caminho quase inevitável do cinismo e da indiferença? E da ideia que fica da possibilidade de descoberta individual, do essencial, quando estamos ainda receptivos às revelações da natureza?

 

Um pequeno intervalo aqui, para recarregar as baterias...

 

 

Voltando ao cinema europeu, tenho para mim que a energia vital de filmes como estes do Rossellini só é possível com a autenticidade. E que esta autenticidade ainda é recuperável no cinema europeu, mas já não a vemos no cinema americano que se estereotipou por completo, salvo uma ou duas excepções. O próprio Wim Wenders, que se iniciou a filmar fascinado pela América cinematográfica, voltou à Europa original e os Anjos vêm daí, os sonhos de humanos vulneráveis, na procura de um sentido, de uma lógica para as suas existências... Vi ontem o seu Imagens de Palermo e fiquei impressionada. Onde é que ele poderia encontrar aquele percurso em aberto, aquela inquietação humana, frágil e humilde, na América? Só no território europeu, este continente tão velho, tão antigo, tão decadente e, no entanto, o único onde ainda é possível pôr tudo em causa sem qualquer estranheza, sem preconceitos nem alibis.

É isto que me motiva agora,  tentar vislumbrar a identidade cultural europeia, essa complexidade e essa autenticidade, essa ousadia de quem atravessou séculos e já viu tudo, de quem perdeu a inocência do olhar mas que está finalmente preparado para se render à sua verdadeira natureza. Finalmente, a verdade. Para a assumir é preciso coragem. Para se olhar nesse espelho. Wim Wenders revela-nos isso. Através do fotógrafo que deambula pelas ruas de Palermo e adormece nas ruas, de cansaço ou porque finalmente se rende...

 

 

 

 

 

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publicado às 20:15

David Lean e a natureza como metáfora da vida

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.12.08

 

Vi um documentário, nos anos 90, creio que na RTP2, em que David Lean nos conta como as opiniões ferozes de alguns críticos o afectaram. Aquele homem ainda belo e de ar aristocrático, deu-nos Brief Encounter, Great Expectations, Ryan's Daughter, A Passage to India (os meus preferidos). E o público aderiu ao Lawrence of Arabia e ao Dr. Zhivago. Estas críticas deixaram marcas em David Lean: uma inibição temporária, de alguns anos, até voltar a realizar. E no entanto, as soluções com que mais implicaram eram, a meu ver, as soluções mais criativas e ousadas! É Cinema-arte! David Lean utiliza frequentemente a natureza como metáfora da vida, dos sentimentos, das emoções. Lembram-se dos ramos ameaçadores daquela árvore centenária nas Grandes Esperanças? Do vento nos ramos das árvores a substituir-se à visão dessa paixão, na Filha de Ryan? Ou das grutas misteriosas na Índia, que tanto perturbaram a rapariga inglesa?

 

Mas também é exímio na montagem, como também foi referido no tal documentário que registei para sempre. A importância da montagem, no cinema, é também uma das lições que os seus filmes nos dão. Neste documentário David Lean exemplifica-nos, através de uma cena, todos os planos em sequência. Uma sequência perfeita.


E voltemos à Índia filmada por David Lean, aos encontros culturais, às sínteses possíveis, outras impossíveis... à modificação vitalícia de uma rapariga inglesa que percebe a tempo que a perturbação é apenas sua e à modificação vitalícia de um homem simples que se deixará levar pelo delírio da revolta.

Fascinante como consegue mostrar por dentro, e de uma forma tão poética, as diversas percepções culturais: da vida, do amor, das pessoas, do mundo. E de como não são apenas as percepções que as distanciam (as duas culturas), mas também as suas prioridades, os seus valores, os seus princípios. Em comum, o desejo profundo de serem respeitadas na sua especificidade. David Lean tenta entrar por aí, procura a razão dessa dificuldade, e a saída possível para esse dilema. E tudo vai dar ao poder e como ele se exerce e como interfere na vida das pessoas. Tudo vai dar aí. Pudesse esta rapariga falar abertamente do que a perturba, a alguém calmo e sensato, e tudo se teria resolvido naturalmente: é assim que os equívocos melhor se esclarecem. Há uma velha senhora inglesa que pressente tudo isto e que gostaria de ter evitado tudo o que se seguiria. Mas tal não será possível. A comunidade inglesa é logo envolvida e todos sabemos como estes assuntos são tratados, com a abordagem errada (e à dimensão errada).


Mas voltemos atrás: à perturbação da rapariga inglesa. Como o contacto com uma cultura exuberante e sensual a modificou para sempre. Ou como simplesmente libertou uma parte de si própria que tinha reprimido, ou que até talvez desconhecesse... Aqui David Lean recorre de novo à natureza como metáfora: os monumentos que desvendam toda a sensualidade possível, todas as possibilidades de expressão da vida quando se liberta...
Nesse piquenique perto das grutas, o homem simples sente-se todo orgulhoso no seu papel de guia. Mal pode sequer adivinhar que em breve será humilhado e acusado injustamente. De novo David Lean a recorrer à natureza: grutas labirínticas, onde os ecos, aumentados, entram pelo corpo dentro, até invadirem todas as moléculas e deixarem a rapariga a tremer. É de medo do seu próprio desejo que a rapariga treme. É de medo de si própria, no fundo, que grita desvairada.


O recurso à natureza é a marca registada de David Lean. Ele é o mestre. Além da elegância da fotografia e da montagem. E do enorme respeito pelo espectador que nunca trata como voyeur. David Lean é um dos melhores de sempre. Um gentleman do cinema. De alma aristocrata.

 

 

 

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publicado às 15:45

Quando uma natureza bravia e uma natureza pacífica se encontram

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.11.08

 

A força da natureza. A lógica do progresso. Uma ilha incómoda. E a descoberta do desejo, também ele indomável. Um encontro que se revela criativo. Wild River.


Voltei a descobrir este filme, desta vez na RTP Memória. Desde que o vi pela primeira vez que me tocou de uma forma estranha. Como capta a força indomável da natureza, a cor outonal, os sons... E as personagens, os diálogos contidos, os gestos expressivos... Há qualquer coisa de muito terreno, selvagem e poético neste filme! A terra e a alma estão ligadas, na avó da jovem mulher. A própria mulher é um pouco bravia, como aquele lugar. Eu sei que somos muito diferentes, dirá ela ao homem da barragem, que vem para resolver a resistência à abertura da comporta. Talvez... mas a sua paz (a dele) é mais aparente do que real. E às vezes só se encontra a tranquilidade aceitando e vivendo as tempestades interiores (neste caso, são mais chuvadas, está-se em Outubro).

Bem, nesta altura já deu para perceber que o filme me tocou mais do que a maioria dos filmes... Talvez porque o meu lugar é, também ele, assim bravio: montanhas isoladas, de pinheiros bravos e ribeiras tumultuosas... Sim, e perto, uma barragem também, também assim azul...


Voltando ao Wild River: A avó de uma jovem mulher, viúva com dois filhos, recusa-se a sair da ilha onde sempre viveu. Permanecerá ali, teimosamente, até a obrigarem a sair. Vemos, no seu último olhar desesperado para a árvore que cai, que alguma coisa dentro de si também começou a cair... E mesmo que a nova casa também tenha um alpendre, como o homem da barragem quis que fosse respeitado, para lhe agradar... não durará muito, adormecerá na cadeira, nesse alpendre, de desgosto. O empregado fiel aguardará ali perto, talvez porque pressinta o fim. Um pormenor em que só desta vez reparei.


Há momentos verdadeiramente mágicos! Como eram contidos e, ao mesmo tempo, tão intensos, os filmes desta época! E como se conseguiam exprimir emoções e sentimentos de forma tão minimalista. Elia Kazan é exímio nessa atmosfera carregada de desejo. Tudo no ritmo certo, nos gestos, na coreografia. A agitação é interior, está quase a explodir, já a sentimos no ar. Depois desse encontro, ela volta na barcaça. Despedem-se de longe. Vemos no seu sorriso que tudo está diferente. Eles mudaram. E será assim a partir daí. Até ele descobrir que não é assim tão auto-suficiente... que (também ele) precisa dela.
Não é fácil amar-te, dir-lhe-á ela. Mas eu amo-te... eu amo-te... Está à sua frente, tão franca e vulnerável, tão altiva e comovente. Sim, orgulhosa de amá-lo, mesmo podendo perdê-lo. Sei que em breve te vais embora, tinha-lhe dito. Leva-me contigo.


Sim, há qualquer coisa de bravio neste filme. E de poético também. Talvez seja essa a força da natureza, a que o homem pacífico não irá poder resistir. Não apenas se apaixona pela jovem mulher, como aceitará o seu desafio e da forma mais inesperada possível. Talvez por ver como ela o defendeu, como uma gata selvagem, naquela luta em que mais uma vez perde. Gostava, por uma vez que fosse, de ganhar uma luta... Ela diz-lhe que isso não é importante. Ali estão, no meio da lama onde tinham caído, lado a lado. E então o homem pergunta-lhe se quer casar com ele... que ele provavelmente se irá arrepender e que certamente ela se arrependerá... Mais inesperado do que isto é impossível.


Sim, o homem ganha uma família instantânea, como já lhe tinha dito, de forma sarcástica, um dos manda-chuvas do sítio. O mesmo que lhe batera forte e feio. Estes indivíduos exemplificam, na perfeição, a rudeza e a rigidez de alguns lugares provincianos. Também é aqui visível o racismo, em que não há igualdade de tratamento nem de salários. Esse é, aliás, um dos pontos de fricção cultural: o homem da barragem insiste em furar aquelas normas absurdas e paga exactamente o mesmo a todos os que contrata. Aqui também podemos medir a sua coragem na medida inversa à sua habilidade e força física. Torna-se especialista em levar pancada. Sim, podemos medir aqui a sua coragem na forma como se sujeita à violência física, não abdicando dos seus princípios.

 

Em Wild River a natureza está sempre presente. De certo modo, a natureza acompanha as emoções das personagens, as suas tempestades interiores. A fotografia e o som, sempre a lembrar-nos que tudo isso também está a acontecer dentro de nós, uma chuvada, um rio que se atravessa, uma ilha que se abandona, uma árvore a tombar…
O ritmo também acompanha as emoções de muito perto. E mesmo que algumas cenas nos pareçam suspensas no tempo, em que só se sente a respiração das personagens, diríamos que numa linguagem e num tempo mais próprios do teatro (e isso é muito Elia Kazan), ainda assim estamos na linguagem do cinema, no tempo do cinema, quando se cruza com o teatro de forma perfeita.
As personagens e os actores, os actores e as personagens, confundem-se aqui. Lee Remick é a viúva um pouco bravia. Montgomery Clift é o homem pacífico. Jo van Fleet é a mulher da ilha, de um território, raiz de uma árvore ancestral que o progresso arranca sem-cerimónia nenhuma.
A natureza e o progresso, a natureza e o homem, num equilíbrio instável. Em Wild River até a barragem parece ligar-se de forma poética às montanhas que a envolvem. Mas será possível dominar um wild river?

 

 

 

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publicado às 13:48

A proximidade de tudo o que é humano

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.12.07

 

Em On Dangerous Ground é a neve muito branca que ilumina tudo. O branco onde tudo se pode escrever.

O nosso herói vive atormentado. Não se sente bem na sua alma, no papel de polícia, na cidade, na solidão, na violência. A cidade sempre escura, a esconder o crime e a decadência. Os preconceitos no olhar do outro que tornam qualquer comunicação impossível. Deixa-se levar pela sua própria violência e acaba por ser despachado por uns tempos para o longínquo norte, onde terá de descobrir o assassino de uma miúda.

O que mais impressiona é aquele branco interminável da neve. Aquela casa tão isolada de tudo. Aquela mulher tão isolada do mundo e, no entanto, o mais próxima possível do mundo. E de tudo o que é humano. Do irmão louco que lhe traz o mundo para dentro de casa e que ela protege do próprio mundo.

A casa é o refúgio, um pequeno mundo onde cada objecto tem uma história, um significado. O homem comove-se, pela primeira vez. E pela primeira vez deixa de lutar contra o mundo. Pela primeira vez chega a casa. Encontra o seu lugar.

A mulher compreende o homem desde o início. Vê melhor porque não é com os olhos que se vê o essencial. E aceita-o sem receio ou condições. Confia porque aprendeu a viver assim. Essa é a forma de o libertar da impossibilidade de comunicar.

 

 

 

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publicado às 15:36

O melhor filão está dentro de nós

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.10.07

 

De novo a mulher, o homem e o rapazinho, mas desta vez não um rapazinho-criança, como no Rio sem Regresso. Um rapaz a caminho da sua autonomia, com uma voz própria, aliás, mais madura por vezes que a voz dos homens, que alia coragem e determinação a ternura e cuidado.


De novo esta estranha composição, seres vulneráveis e sós, que se apoiam e se ligam por laços tão fortes como o seu desamparo. Na natureza áspera e selvagem das montanhas, onde homens igualmente ásperos e selvagens procuram o eterno filão.


A cegueira da mulher e a visão que vai adquirindo, com o apoio do homem e do rapaz, em quem aprende a confiar, tem um sentido mais profundo. Medo da claridade, da verdade, da perda, da dor? O homem ajuda-a a libertar-se desse medo de ver, de viver, mas foge do seu próprio medo de amar, de confiar. E de ser assim amado, de forma tão inteira. O rapaz entende tudo isso e di-lo, sem rodeios. Será ele o protector da mulher, a sua companhia, o seu afecto. O homem apoia-os de longe, em segredo.


Até tudo se precipitar e ultrapassar as nossas personagens. Circunstâncias próprias da natureza humana, a sua terrível ambição e mesquinhez, a descoberta de um filão. E o seu terrível sentido de posse, de território. A sua boçalidade.


O amor do homem, que tinha surgido da forma mais suave e quase maternal, ao ajudá-la a abrir os olhos e a ver, também o cegará de ódio e despertará nele a luta mais primitiva quando a vê em perigo.


E é quando tudo parece perdido, o homem rodeado pelos justiceiros e sedentos de espectáculo, na hanging tree, que é salvo pelo amor que receia, de que foge. A mulher e o rapaz vêm resgatá-lo, o filão pelo amor. Como pode ele continuar a fugir? Elizabeth. Inclina-se sobre ela, a imagem poética e sensual.


Estranha natureza humana: quando o pior de nós surge, o melhor de nós surge também, o melhor filão, o genuíno, o que perdura, o que está vivo.

 

 

 

 

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publicado às 10:21

High Sierra

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.09.07

Quando o nosso herói é perseguido, no final, já viveu decepções, traições, e assistiu à mediocridade e à estupidez humanas, a sua terrível vulgaridade.

A rapariga que ajudara a libertar-se de uma limitação física, revelou uma limitação de alma, e essa não é operável. Rejeitou-o por um imbecil oportunista. Os parceiros do grupo do assalto degladiam-se por motivos básicos, primários. O ilusório sentimento de posse que dominou os seus ancestrais.

Mas ainda foi a tempo de descobrir o amor dedicado, desesperado, canino, e não só do cão, o “que dá azar”, mas da mulher que o acompanha até ao fim.

A montanha rochosa, imponente, magnífica, indiferente à perseguição e, no entanto, metáfora da liberdade, de valores como a rebeldia do indivíduo numa sociedade que se torna sufocante. A subida à montanha, o último refúgio. A liberdade possível.

“He’s free… free…” Ida Lupino a chorar e a sorrir… “free…”

 

 

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publicado às 17:37

A violência da natureza

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 29.08.07

Nunca como em Tennessee Williams e Suddenly, Last Summer, percebemos e sentimos a violência da natureza, e mesmo da natureza humana, que acompanha a violência da natureza.

Aquele jardim tenta reproduzir a criação original, na sua pureza original. É que, queiramos aceitá-lo ou não, convivemos mal com a natureza na sua versão original. É com as versões domesticadas que nos habituámos a viver. É nelas que aprendemos a viver. E no entanto… trazemos nos genes essa violência original que queremos negar. Talvez até seja daí, dessa nossa origem, que venha a ideia de “pecado original”. A que voltamos de vez em quando, obedecendo à nossa natureza.

A civilização é uma construção elaborada, em camadas, sobre essa violência original. Só assim se pode proteger o mais fraco, o desprotegido, o vulnerável. Ou sequer sentir compaixão: identificarmo-nos com a sua dor, reconhecermo-nos na sua vulnerabilidade.

Mas será que a corrida das tartarugas-bébé para o mar, essa terrível saga pela sobrevivência, não se repete ainda, todos os dias? De forma visível ou invisível, em campo aberto ou em campo encoberto?

 

 

Muitos dias depois... descobri num outro lugar...

 

 

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publicado às 12:19


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